Cresce atendimento por uso ilegal dos remédios
Fonte: O POVO Online/OPOVO/Fortaleza
A vaidade liga a história de dois personagens rumando para um futuro destruidor. A causa é o uso tentador dos esteroides anabolizantes. Nos últimos três anos, cerca de 20 pacientes buscaram atendimento pelo uso de anabolizantes no Hospital Walter Cantídio
16.01.2012| 01:00
A proposta foi tentadora. O resultado, certeiro. Em apenas três meses, o jovem biólogo, franzino e tímido, passou por uma verdadeira mutação. Com 1,77 metro e pesando 58 quilos, "pele e osso", como se define, a balança passou aos 90, com muitos músculos. A autoestima se multiplicou. A palavra "vergonha" deu lugar à "confiança". Ele fazia mais sucesso com as garotas. A virilidade foi a mil. A diversão era juntar-se a uma dúzia de outros rapazes e distribuir pancadaria. Mas a glória durou pouco tempo.
Quando deu-se conta, Bernardo*, hoje aos 27 anos, estava internado no Hospital São José, por duas paradas cardíacas em uma noite. Ele é um dos que sofreram as consequências dos efeitos colaterais dos esteroides anabolizantes. Nos últimos três anos, cerca de 20 pacientes buscaram atendimento pelo uso de anabolizantes no Hospital Universitário Walter Cantídio. Os dados são da chefe da equipe de Nefrologia do hospital, a médica Elizabeth Dayer.
A quantidade pode parecer pouca, mas, segundo a médica, é um número alto - reflexo do crescente número de usuários. "Até 2008, eram dois casos por ano, no máximo. Aumentou assustadoramente", constata. A maioria dos pacientes atendidos pela nefrologista começou a usar esteroides sem o conhecimento das consequências para o corpo. "É muita desinformação", acrescenta ela.
Segundo a médica, com a divulgação na mídia, a falta de conhecimento não pode mais ser apontada como principal motivador. "Muita gente esclarecida usa sabendo de todos os riscos pelos quais pode passar", aponta.
Primeiro contato
Bernardo, o personagem do início desta matéria, sofreu atrofia testicular e as mamas se desenvolveram de forma descomunal. O rapaz já não tinha mais desejo sexual. Como o corpo se acostuma, Bernardo foi aumentando as doses. Os medicamentos passaram a não surtir mais os efeitos.
O biólogo foi usando anabolizantes mais poderosos. Aplicou até um medicamento indicado para quem tem perda muscular como consequência da aids e leucemia. "Cheguei a tomar, em um mês, oito caixas. A bula indicava um comprimido a cada 15 dias", recorda a loucura. No hospital, após as paradas cardíacas, o médico se surpreendeu. "Já morreu muita gente tomando só uma caixa, e eu tomei oito e estava vivo".
E Bernardo foi perdendo companheiros de academia, de faculdade, de vida, viciados nos resultados dos anabolizantes. Em um deles, com câncer e metástase. Em outro, a parada cardíaca. "Não era isso que eu queria para mim. Foi aí que decidir parar".
* O nome é fictício para preservar o entrevistado
ENTENDA A NOTÍCIA
Saiba mais
Aumento muito rápido dos músculos
Segundo o médico do esporte Marcus Strozberg, os primeiros sinais que podem ser notados é o aumento muito rápido dos músculos da pessoa que usa anabolizantes. Em geral, um aumento fora do comum nos primeiros três meses.
Para os homens, uma maior agressividade. Para as mulheres, engrossamento da voz e aparecimento de pelos.
Leia amanhã
Angélica Feitosa
angelica@opovo.com.br
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