quarta-feira, 18 de setembro de 2013

[MorrendoDeRir.51086] Com mais leveza...





 
 
 
 
 
 
 
 
Bom dia!
 
 
Em algumas fases da jornada, às vezes longas, carregamos um bocado de peso na alma.
Nem um pouco raro, às vezes sem sequer notarmos.
A gente costuma se acostumar fácil às circunstâncias difíceis que, vez ou outra,
podem ser mudadas até sem grandes elaborações e movimentos,
sem que se precise contar com sorte, promessas, milagres e cercanias.
A gente costuma se adaptar demais ao que faz nossos olhos brilharem menos.
A gente costuma camuflar a exaustão.
Inventar inúmeras maneiras para revestir o coração com isolamento
acústico para evitar ouvi-lo.
Fazer de conta que a vida é assim mesmo e pronto.
Que somos assim mesmo e ponto.
A gente costuma arrastar bolas de ferro e agir como se carregássemos pétalas só pra não precisar fazer contato com as insatisfações e trabalhar para transformá-las.
A gente costuma mudar de calçada quando vê certos riscos virem na nossa direção,
mesmo que nos encantem.
A gente carrega muito peso no peito, tantas vezes, porque resiste à mudança o
máximo que consegue.
Até o dia em que a alma, com toda razão, cansada de não ser olhada, encontra o
seu jeito de ser vista e dizer quem é mesmo que manda.
 
Eu me flagrei pensando nessas coisas um dia desses.
No que esse peso todo, silenciosamente, faz com a alma.
No que isso faz com os sonhos mais bonitos e charmosos e arejados da gente.
No que isso, capítulo a capítulo, dia após dia, faz com a nossa espontaneidade.
No que isso faz, de forma lenta e disfarçada, com o desenhista lindo que nos habita
e traça os risos de dentro pra fora.
E o entusiasmo.
E o encanto.
E a grata emoção de estarmos vivos.
Eu fiquei pensando no quanto é chato a gente se acostumar tanto.
No quanto é chato a gente só se adaptar.
No quanto é chato a gente camuflar a própria exaustão, a vida mais ou menos há milênios,
que canta pouco, ri pequeno, respira míngua e quase não sai pra passear.
Eu fiquei pensando no quanto é chato deixarmos o coração isolado para não lhe dar a chance de nos contar o que imagina pra gente e o que ainda podemos desenhar juntos nesta história.
Se a ficha cair.
Se rolar afeto.
Se houver diálogo.
 
Mas chega um momento, acredito, em que, lá no fundo, a gente começa a desconfiar
de que algo não está bem e que, embora seja mais fácil culpar Deus e o mundo,
nominar réus, inventariar frustrações, vai ver que os algozes moram em nós, dividindo
espaço com o tal desenhista que, temporariamente, está com a ponta do lápis quebrada.
Sem fazer alarde, a gente começa a perceber os tímidos indícios que vêm nos dizer que já não suportamos carregar tanto peso como antes e viver só para aguentar.
Queremos mais: queremos o conforto bom da alegria e o entusiasmo capaz de nos fazer
levantar da cama de manhã com vontade de ajudar a florescer,
mais ou finalmente, o que nos importa.
 
Devagarinho, a gente começa a sentir que algo precisa ser feito.
Embora ainda não faça.
Embora ainda insista em fazer ouvidos de mercador para a própria consciência.
Embora às vezes ainda estresse toda a musculatura da alma, lesione a vida, enrijeça o riso,
embace o brilho dos olhos, envenene os rios por onde corre o amor.
Por medo da mudança, quando não dá mais para carregar tanto peso, a gente
aprende a empurrá-lo, desaprendendo um pouco mais o prazer.
Quase nem consegue respirar de tanto esforço, mas aguenta ou pelo menos faz de conta,
algumas vezes até com estranho orgulho.
Até que chega a hora em que a resistência é vencida.
A gente aceita encarar o casulo.
A gente deixa a natureza tecer outra história. A gente quer tecer junto.
A gente permite que a borboleta aconteça.
 
Nascemos também para aprender a amar.
Para dançar com a vida com mais leveza.
Para, presentes, curar passados e perfumar futuros.
Para criar mais espaço de bem-estar dentro da gente.
Para ser mais felizes e bondosos.
Para respirar mais macio.
Podemos ainda subestimar a nossa coragem para assumir esse aprendizado e acolher,
passo a passo, no nosso ritmo, essa experiência.
Podemos nos acostumar a olhar o peso e o aperto, nossos e alheios, tanto sofrimento
por metro quadrado, como coisa que não pode nunca ser transformada.
Podemos sentir um medo imenso e passar longas temporadas quase paralisados de tanto susto. Podemos esgotar vários calendários sem dar a menor importância para o material didático que,
aqui e ali, a vida nos oferece.
Podemos ignorar as lições do livro-texto que é o tempo e guardar, bem escondido da nossa prática, esse caderno de exercícios que é o nosso relacionamento com nós mesmos e com os outros.
Apesar disso tudo, a nossa semente, desde sempre, já inclui as asas.
Já vislumbra o voo.
Já sorri pro riso.
Já é feita para um dia fazer florir o amor que abriga.
Mais cedo ou mais tarde, floresce.
É o propósito dela.
 
Que seja leve o seu dia...
Muita Paz!
 

(Ana Jácomo)
 
 
 
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